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Paulo da Prisão em Cesaréia até Roma

Os acontecimentos que ora estudamos no livro de Atos mostram que a pátria da Igreja foi também o berço de um fanatismo religioso intenso. O partido judaico, dentro da igreja, queria sufocar a liberdade cristã dos novos convertidos. Paulo se tornou o alvo principal das ameaças dos judaizantes. Tiago, líder da igreja em Jerusalém, percebendo o que poderiam fazer ao apóstolo, principalmente a multidão enfurecida, aconselhou-o a não desafiá-los, mas a se resguardar sob o cumprimento dos preceitos cerimoniais do nazireado.

 

Paulo atendeu o conselho (At 21:18-26), e tudo parecia bem entre os judeus da pátria ou palestinenses, que conheciam bem pouco a respeito do procedimento do apóstolo. Porém, chegou ali um grupo de judeus da diáspora, vindos da Ásia (At 21:27-28), e estes o reconheceram. Estando Paulo no templo, foi acusado de profanar o santuário sagrado dos judeus, sob a falsa alegação de haver introduzido ali um companheiro gentio.

 

PAULO, O PRISIONEIRO DO SENHOR (Cl 4:18; 2Tm 1:16; 2:8-9; Ef 3:1; 4:1)

 

"Agora o que resta de Atos prende-se exclusivamente ao que Paulo experimentou como detento, à disposição das autoridades romanas. Calcula-se de cinco anos o período que vai desde a sua captura em Jerusalém até a sua soltura em Roma" (C. Erdman).

 

Paulo teve uma recepção calorosa por parte dos crentes fiéis em Jerusalém (At 21:20), mas foi por eles advertido do risco que corria por causa dos convertidos "zelosos da lei" (At 21:21). Convém lembrar que Paulo rejeitava a Lei como meio de justificação e não como regra de vida. Por isso, se submeteu ao ritual do nazireado (Nm 6:13-21), para evitar ofensas aos seus compatriotas.

 

A DEFESA DE PAULO PERANTE OS JUDEUS (At 21:37-22:22)

 

Podemos resumir o raciocínio seguido por Paulo da seguinte maneira - mais que uma repetição do relato de sua conversão, Paulo emprega um raciocínio lógico para provar isso.

 

1. No tocante à sua origem e educação, em nada era diferente de seus compatriotas - era um judeu legítimo. A diferença estava no fato de que havia passado por uma experiência sobrenatural de profunda transformação que o identificava agora com a pessoa de Cristo.

 

2. O poder divino que havia transformado a sua vida de forma repentina na estrada de Damasco provava que o Jesus Nazareno era o verdadeiro Salvador. "Perseguir os que o seguem é um pecado grave".

 

3. A transformação de um defensor fanático da Lei judaica e antigo perseguidor em agora perseguido tornava-o um apóstolo e testemunha digna de crédito, pois pregava exatamente o que outrora rejeitava e odiava.

 

Paulo conclui seu discurso colocando-os novamente na encruzilhada da rejeição da pessoa de Cristo e, portanto, em luta não contra Paulo, mas contra Deus.

 

A DEFESA PERANTE O TRIBUNAL DOS JUDEUS (At 22:23-23:11)

 

A fala de Paulo à multidão não logrou acalmar a ira dos judeus que provocavam tumulto; ao contrário, suscitou o coro: "Tira tal homem da terra, porque não convém que ele viva" (At 22:22). Diante de tal apelo, o oficial romano, que ignorava quem era o detento, ordenou que fosse interrogado debaixo de açoite. Ao ser informado, entretanto, tratar-se de um cidadão romano, que não podia ser açoitado sem processo formal e oportunidade de defesa, optou, então, por enviá-lo para o julgamento do tribunal judaico.

 

Podemos resumir os argumentos de Paulo diante do Sinédrio nestes dois aspectos.

 

1. O incidente com o sumo sacerdote. O que parece certo é que Paulo, no meio de tanta gente, não percebeu que a ordem de lhe baterem na boca havia partido do sumo sacerdote. A sua resposta (At 23:3) tinha mais um tom profético e reconhecimento de inocência. A Bíblia Anotada de Ryrie diz tratar-se de Ananias, que foi sumo sacerdote entre 48-58 A.D, que tinha a reputação de ser "insolente e autoritário". Outra explicação em defesa do comportamento de Paulo diz respeito a sua vista cansada, que não teria permitido identificar o sumo sacerdote. Se se trata de ironia, então, Paulo quis dizer: "Jamais poderia pensar que o sumo sacerdote agisse assim".

 

2. Visto ser o tribunal composto de fariseus e saduceus principalmente, Paulo dividiu as opiniões do seleto auditório de juízes ao dizer que estava sendo julgado pela sua crença na ressurreição dos mortos. Erdman conclui que Paulo não usou astúcia, desta de que o mundo usa em suas argumentações, o que declarou ao tribunal foi a doutrina essencial da fé cristã, pela qual estava sendo processado".

 

PAULO NA PRISÃO DE CESARÉIA (At 23:12-35)

 

O objetivo de Deus era conduzir Paulo de Jerusalém a Roma, conforme visão dada ao apóstolo (At 23:11), mas o objetivo dos adversários por meio de conspiração infame era o assassinato de Paulo, numa clara demonstração da completa degradação do tribunal de justiça dos judeus (At 23:12). O tribunal aceitou toda insinuação dos conspiradores, os quais atentavam contra a vida do apóstolo, que escapou graças à vigilância e interferência de um sobrinho, que tinha avisado ao comandante da guarnição romana sobre toda a trama empreendida contra a vida de Paulo.

 

״É muito interessante observar como o historiador se esmera em relatar tantos cuidados da parte de um governo pagão para proteger a vida e acautelar os interesses da justiça, quando o mesmo não se vê da parte das autoridades corruptas de um povo que se diz pertencer a Deus" (C. Erdman). Assim, sob custódia, Paulo acabou parando na prisão de Cesaréia, na costa marítima da Palestina, por um prolongado período de tempo.

 

Paulo menciona frequentemente em suas cartas o fato de carregar as algemas (Cl 4:18; 2Tm 1:16; 2:9) por amor de Cristo e do Evangelho, testemunho corroborado na carta aos Hebreus (11:36). Assim, o apóstolo viveu boa parte da vida como um detento que não se envergonhava do testemunho de Jesus (Mc 8:38).

 

A defesa perante os judeus amotinados, e logo depois perante o Sinédrio e diante das autoridades romanas, não tinha como propósito produzir uma peça de oratória jurídica. Visava mostrar aos adversários do Evangelho a necessidade que todos os seres humanos têm de crer no Filho de Deus para serem justos aos olhos de Deus e praticarem atos de justiça. Paulo estava certo de que "todas as coisas colaboram para o bem dos que amam a Deus e são chamados segundo o seu propósito" (Rm 8:28).

 

No julgamento de Paulo, cumpriu-se cabalmente, com extensão histórica e escatológica, o que Jesus predisse aos Seus discípulos: ״E acautelai-vos dos homens; porque vos entregarão aos tribunais e vos açoitarão nas suas sinagogas; por minha causa sereis levados à presença de governadores e de reis, para lhes servir de testemunho, a eles e aos gentios" (Mt 10:17, 18; ver também 24:9-28).

 

O apóstolo das gentes, em todo o período de sua prisão e julgamento, conduziu-se com cautela, coragem e sabedoria (At 23:5,11-23), na convicção de que a vontade do Senhor era sua viagem a Roma para que ali também testemunhasse de Cristo (At 23:11).

 

Não importa a dificuldade do caminho a que somos conduzidos, contanto que suas trilhas nos levem ao sábio querer de Deus.

 

Paulo seguiu esse caminho com coragem e resignação, não obstante as dores e os sofrimentos que o aguardavam, num exemplo verdadeiro para todos os que percorrem as sendas íngremes do serviço cristão (ver 2Co 11:23-33).

 

Vamos seguir a trajetória do apóstolo, no seu testemunho de defesa diante dos governantes Félix, Festo e Agripa. Lembremo-nos das palavras do Mestre: ״E, quando vos entregarem, não cuideis em como ou que haveis de falar, porque, naquela hora, vos será concedido o que haveis de dizer, visto que não sois vós os que falais, mas o Espírito de vosso Pai é quem fala em vós" (Mt 10:19-20).

 

PAULO DIANTE DE FÉLIX (At 24:1-27)

 

As ocorrências desse julgamento deram-se em Cesaréia, cidade de onde Félix, procurador romano, governou toda a Judéia, provavelmente de 52 a 58 d.C. Ali, Paulo estava detido, depois de ter sido escoltado, a mando de Cláudio Lísias, desde Jerusalém (At 23:23-35).

 

"Os detalhes escritos no texto são forte indício de que Lucas assistiu pessoalmente ao julgamento de Paulo" (Rodapé da Bíblia Anotada, p. 1399).

 

1. O acusador Tértulo (vs. 1-9) Pelo seu nome, atribui-se ter sido um romano que atuou como promotor a favor dos judeus apresentando libelo contra Paulo, endossado por eles (v.9).

 

a. Suas palavras lisonjeiras (vs. 2-4) - "As suas palavras lisonjeiras para com o governador Félix e a promessa de que seria breve fizeram parte da forma tradicional de iniciar discursos". (Panorama do Novo Testamento de Robert H. Gundry).

 

A Palavra de Deus ensina-nos a honrar as autoridades constituídas. Há diferença entre honrar e lisonjear? (Rm 13:1-7; 1Pe 2:11-17) Há diferença entre as palavras de Paulo (At 24:10) e as de Tértulo (At 24:2-3)?

 

b. Sua acusação (vs. 4-9) - Tértulo fala de Paulo como se este fosse um perturbador da paz ou amotinador de povos. Acusa-o de promover sedições entre os judeus dispersos e de ser o principal agitador da seita dos nazarenos. Isso faz lembrar o que Jesus disse acontecer com Seus seguidores: "Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós" (Mt 5:11). O punhal da calúnia, usado contra o Senhor Jesus no Seu injusto julgamento (Mt 26:59-61) é usado por Tértulo para ferir e sangrar o coração de Paulo.

 

Outra acusação infundada foi a de profanador: "o qual também tentou profanar o templo" (24:6). No versículo 7, ele exagerou em suas palavras, pois Cláudio Lísias não usou de violência quando tirou o apóstolo das mãos dos judeus, pelo contrário, a violência quase atingiu Paulo (At 22:24-29; 23:10).

 

2. A defesa do apóstolo (vs. 10-21) Paulo, no seu discurso, diz que Félix era conhecedor dos fatos contrários às acusações sofridas por ele, e isso o fazia sentir-se à vontade na sua defesa (vs. 10-11).

 

a. Ele não era profano nem agitador (vs. 11-12) - Sua ida a Jerusalém foi motivada pelo amor e solidariedade ao seu povo: "Depois de anos, vim trazer esmolas à minha nação e também fazer oferendas" (24:17). Ver Rm 15:25; At 21:18-26; 2 Co 8:1-9:5.

 

b. Ele professava sua fé (vs. 14-21) ao servir a Deus:

• seguindo o Caminho (v.14a);

• crendo no que estava de acordo com a lei e os profetas (v.14b);

• crendo na ressurreição (vs. 15, 21);

• tendo consciência pura (v.16);

• anunciando a justiça, o domínio próprio e o juízo vindouro (v.25).

 

Quantas vezes somos levados pelas gigantescas ondas do mal e das heresias porque a fé que professamos ter não se acompanha de um servir com consciência pura diante de Deus e dos homens!

 

3. Félix, um juiz passivo e egoísta (vs. 22-27)

 

No Novo Comentário da Bíblia, de F. Davidson, há informações de que Félix nascera plebeu, mas ligou-se pelo casamento a famílias distintas. Sua terceira esposa, Drusila, era judia e filha do rei Herodes, o qual mandou matar Tiago, irmão de João. (At 12:1, 2). Seu caráter, além de perverso, era imoral e corrupto; amava o suborno (v.26) e para "assegurar o apoio dos judeus, manteve Paulo encarcerado" (v.27).

 

PAULO DIANTE DE FESTO (At 25:1-22)

 

A Bíblia nos informa que Festo foi o sucessor de Félix (25:1), e que seu primeiro ato governamental foi subir a Jerusalém. Seu governo foi muito curto, de 59 d.C. a 61 d.C, ano em que morreu. ״Sua gestão não foi assinalada pelos excessos do seu predecessor e sucessores" (Novo Comentário da Bíblia, p. 1142)

 

Em Jerusalém, encontrou-se com a liderança dos judeus e recusou a proposta destes, de trazer Paulo de Cesaréia para ser julgado naquela cidade; no entanto, mais tarde, querendo o apoio dos acusadores, sugeriu a Paulo que descesse a Jerusalém para ali ser julgado. Diante disso, Paulo apelou para César, que naquele tempo era o imperador Nero.

 

A agonia extrema da injustiça sofrida leva o homem à apelação para governantes maus e sem caráter.

 

1. As acusações dos judeus (vs. 2-7) Foram muitas e graves as acusações contra Paulo (v.7), mas não puderam prová-las (v.7b).

 

Se sofremos por causa de Cristo, não devemos ficar amedrontados, mas confiar naquele que tudo sofreu por nós (1Pe 3:13-17; 4:12-19).

 

2. A defesa de Paulo (Vs. 8-11) Ele julgou-se inocente dos crimes dos quais foi acusado e com a consciência de que não cometeu ou praticou nenhum agravo ou pecado:

 

a. contra a lei ou contra os judeus (v.8b);

b. contra o templo (v.8b; 21:27-31);

c. contra César (v.8c).

 

PAULO DIANTE DE AGRIPA (At 25:13-26:32)

 

"Herodes Agripa II era bisneto de Herodes, o Grande, e irmão de Drusila (esposa do ex-governador Félix), além de ser o rei de pequena região próxima do Líbano". (Robert H. Gundry, Panorama do Novo Testamento). Berenice era sua irmã mais nova. Os dois foram fazer uma visita oficial a Festo "em honra à sua nova governança".

 

"Como se demorasse ali (Cesaréia) alguns dias, Festo expôs ao rei o caso de Paulo". (25:14).

 

1. O relatório de Festo a Agripa (25:13-27)

 

Nessa exposição são detalhados os seguintes aspectos:

 

a. Festo não viu nenhum delito dos crimes que suspeitava de Paulo (25:18, 25-27);

b. Festo ignorava a religião dos judeus (25:19);

c. Paulo afirmava que Cristo ressuscitou (25:19b);

d. o testemunho de Paulo o deixou perplexo e embaraçado (25:20, 21).

 

A ambição dos governantes para agradar os homens os faz ficarem passivos quanto à justiça (Gl 1:10).

 

2. A pompa do tribunal (25:22-24) Pessoas distintas foram convidadas para ouvir a defesa do apóstolo, que foi preparado pelo Senhor para aquela audiência especial. Ver At 9:15-16.

 

3. A mensagem de Paulo (26:1-23) Segundo Davidson, o discurso de Paulo pode ser dividido em exórdios (26:2-3).

 

a. Sua posição de fariseu, a qual envolve fé na ressurreição (26:4-8).

b. A narrativa do seu zelo perseguidor (26:9-11).

c. A visão celestial (26:12-18).

d. Sua vida de obediência à essa visão (26:19-20).

e. Sua prisão (26:21).

f. A substância da sua pregação: a ressurreição de Cristo (26:22-23).

 

4. As reações (26:24, 28)

 

a. Festo - Ficou totalmente desorientado e só pôde concluir que Paulo, embora extremamente culto, "fora levado pelo seu saber a transpor a tênue linha que faz separação entre a erudição e a insânia" (Novo Comentário da Bíblia). O homem natural não aceita e não entende as coisas do Espírito de Deus (1Co 1:18-21; 2:6-16).

b. Agrípa (26:28) - "Por pouco me persuades a me fazer cristão". O dilema do rei poderia levá-lo a ser cristão, mas a influência do poder o fez perder a oportunidade.

 

O julgamento de Paulo nos faz refletir solenemente sobre as palavras de Jesus: "Portanto, todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus" (Mt 10:32, 33).

 

Paulo é um exemplo que deve inspirar-nos a testemunhar de nosso Salvador, em toda situação que a vida nos levar, mesmo que seja na adversidade de um mundo cruel e hostil.

 

Através das experiências vividas por Paulo a bordo das embarcações que o levaram a Roma, podemos estar certos de que aquele que anda dentro da vontade de Deus é imortal até o cumprimento de sua missão terrena.

 

Por meio de revelação especial, Deus deu ao apóstolo a plena certeza de Sua vontade em meio às hostilidades, perseguições e angústias: "Na noite seguinte, o Senhor, pondo-se ao lado dele, disse: Coragem! Pois do modo por que deste testemunho a meu respeito em Jerusalém, assim importa que também o faças em Roma" (At 23:11; ainda At 27:23-25 como vimos na ajuda detalhada em ebdareiabranca).

 

Os diversos meios pelos quais Paulo chegou ao seu destino foram turbulentos, difíceis e desafiadores. Eles nos mostram a soberania, a proteção e os cuidados de Deus, os quais refletem a presença divina com o homem que O ama e O serve. Aplicam-se a isso as palavras do Senhor a Israel: "Quando passares pela águas, eu serei contigo ... Porque eu sou o SENHOR, teu Deus, o Santo de Israel, o teu Salvador "(Is 43:2,3 cf. 41:10,13).

 

No plano de Deus, as dificuldades do percurso se transformam em provas de resistência, sabedoria e confiança.

 

Aprendemos que Deus está presente com Seus servos que ousam servi-Lo. Que a convicção dessa verdade nos faça atravessar o mar das dificuldades ainda que este se torne furioso e contrário ao destino traçado.

 

DE CESARÉIA A CRETA (At 27:1-12)

 

Paulo estava detido em Cesaréia, sede da administração provincial da Judéia, onde o apóstolo apresentou sua defesa perante Félix, Festo e Agripa. Tendo apelado para César (25:11), ficou em custódia para julgamento até que fosse enviado a Roma (25:21).

 

Lucas narrou a viagem a começar de Cesaréia, e nela podemos ver retratada a providência divina em fortalecer o caráter e a fé do Seu servo, que já sofrera naufrágios e situações as mais adversas; e na sua trajetória final demonstrou ser forte e sábio em momentos emergenciais (Ver 2 Co 11:23-33).

 

Nos dias de perplexidades e dificuldades, e nas situações de medo e terror de um mar encrespado, o caráter e a confiança do crente se jogam corajosamente nos braços de Jesus (Lc 8:22-25; Mt 8:23-27; Mc 4:35-41).

 

1. Os tripulantes e passageiros dos navios (27:1-2)

 

A Bíblia nos revela que estavam viajando duzentas e setenta e seis pessoas (27:37), e que elas tiveram que embarcar em três navios até Roma (27:2,6; 28:11).

 

a. Paulo, Lucas e Aristarco, este um crente macedônio de Tessalônica (27:2) - Devemos observar a liderança que Paulo exerceu em todo percurso. Ele era homem prático e sábio e, sobretudo, consciente da vontade do Senhor (27:10-11,21-25). Se todos tivessem ouvido o apóstolo, enormes transtornos e prejuízos teriam sido evitados. Isso nos deve fazer lembrar o dever que temos para com aqueles que lideram a igreja e a sua denominação, barcos eclesiásticos nos quais velejamos: OBEDIÊNCIA (Hb 13:7,17; Rm 13:1,2).

 

Nestes dias de tanta insubmissão, urge que tomemos uma atitude corajosa de obediência aos nossos líderes.

 

Lucas descreve detalhes para a história cristã pelo fato de ter vivenciado a trajetória que Deus traçou para Paulo (27:2,6,19,27,37; 28:1,7,11). Ele incluiu-se como um dos navegantes e foi companheiro de Paulo nos momentos difíceis (1 Tm 4:11).

 

Aristarco foi companheiro de viagens missionárias de Paulo (At 19:29; Cl 4:10; Fm 24) e o acompanhou a Roma, sendo fiel amigo.

 

b. O centurião Júlio e seus soldados (27:1,3,6,42,43) - Júlio tornou-se amigo de Paulo e demonstrou admiração pelo apóstolo, tratando-o com humanidade e salvando-o da morte quando os soldados sugeriram matar os presos para que não fugissem (27:42,43).

 

c. Os marinheiros (27:11,12,30) - Eram peritos em navegação e não aceitaram o conselho de um leigo que passara por outras situações semelhantes, o qual tinha enorme sensibilidade e sabedoria.

 

Nem sempre os especialistas têm razão ou as melhores ideias. Precisamos ouvir também os que, pela experiência, adquiriram sabedoria.

 

2. As dificuldades do primeiro percurso (27:3-12)

 

A primeira parada foi em Sidom, onde o centurião permitiu que Paulo visse os amigos e recebesse assistência (27:3). A partir de Chipre, aconteceram grandes dificuldades.

 

a. Os ventos contrários num mar perigoso (27:4,5,7) - O barco velejou contra os ventos fortes. Olhando o mapa apresentado no Manual Bíblico de H.H. Hally, p. 513, podemos imaginar a luta que tiveram para chegar a Mirra, na Lícia, Ásia Menor, uma difícil travessia num mar agitado e perigoso que os desafiou até Malta.

 

Aqueles que remam contra maré ou em rios de fortes correntezas precisam ter força e perseverança até chegarem ao porto seguro. Exemplos dos heróis da fé (Hb 11:36-40).

 

b. A mudança de navio (27:6,7) - Em Mirra pegaram o navio de Alexandria, certamente carregado de trigo, o qual estava de partida para a Itália. Mudanças sempre trazem preocupação e insegurança. Como seria a tripulação da nova embarcação? O que podemos aprender do caráter dos marinheiros, através do texto de At 27:30?

 

c. Aflição a bordo (27:7-9) - O impedimento para seguir viagem em Cnido, por causa dos ventos contrários (27:7), o costear Salmona penosamente, a chegada com dificuldade ao lugar chamado Bons Portos e a navegação perigosa (27:9) foram fatos que devem ter causado agonia e aflição a todos.

 

A aflição (tribulação) produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança (Rm 5:3,4). Ver Salmo 77:1-13.

 

3. O líder Paulo (27:9-12) Paulo exerceu grande influência sobre seus companheiros de viagens demonstrando ser homem de visão e experiência.

• Ele teve a visão profética das dificuldades (27:9,10).

• Ele não se ressentiu por não ser acreditado (27:11-13).

 

DE CRETA À ITÁLIA - At 27:14-28:31

 

As turbulências da viagem continuaram cada vez mais agressivas e cruéis. Tempestades sacudiam o navio, fazendo estremecer os corações mais acostumados a elas. A bordo, homens lutavam, jejuavam e tinham náuseas com os solavancos do navio. A situação era cada vez pior até a ilha de Malta, onde o navio se despedaçou.

 

Lucas narrou com maestria os admiráveis fatos descritos nesse segundo percurso da viagem.

 

1. A tempestade no mar (27:13-20) Foi nessa tormenta que os passageiros sentiram toda a fúria do Euroaquilão, o tufão que se desencadeou ao lado da ilha de Creta e arrastou com violência o navio desgovernado (27:14-16).

 

a. Um barco à deriva (27:15-18) - "e, sendo o navio arrastado com violência, sem poder resistir ao vento, cessamos a manobra e nos fomos deixando levar" (27:15).

 

Às vezes, nossa vida e igrejas se parecem com aquele navio, diante das tempestades do secularismo, das falsas doutrinas e do desgoverno. Cristo é o Timoneiro divino. Vamos confiar a Ele a direção de tudo!

 

b. Os recursos humanos não são suficientes (27:16-19) - Usaram todos os meios para cingir o navio porque temeram a Sirte (nome da costa africana entre Cartago e Cirene, região onde havia areias movediças, temidas pelos navegantes), e aliviaram o navio.

 

c. A esperança dissipada (27:20) - não aparecendo, havia já alguns dias, nem sol nem estrelas, caindo sobre nós grande tempestade, dissipou-se, afinal, toda a esperança de salvamento".

 

2. A primeira intervenção de Paulo (27:21-26)

 

As intervenções de Paulo foram reações à situação de desânimo e desespero que tomou conta daqueles homens. Sua palavra firme foi bálsamo para os corações desalentados, e sua reprimenda (27:21) demonstra que sua autoridade foi reconhecida.

 

a. A revelação dá segurança (27:22-24) - O Deus de quem Paulo era e a Quem servia enviou Seu anjo para confirmar Seu propósito, e assim o apóstolo transmitia segurança: "É preciso que compareças perante César". Por Sua graça todos escapariam da morte (27:24). Quanto à missão dos anjos ver Hb 1:13,14.

 

b. A revelação dá ânimo e convicção (27:25-29) - A convicção do apóstolo despertou aqueles homens e a partir daí receberam coragem para agir (27:27-28) e para orar (27:29).

 

3. A segunda intervenção de Paulo (27:30-32)

 

A intervenção aqui foi para que vidas preciosas fossem poupadas. Embora já houvesse garantia (27:24), a responsabilidade dos marinheiros estava incluída para seu cumprimento.

 

Não devemos esquecer nossa responsabilidade na salvação e preservação da vida, fugindo das tarefas que Deus nos confere.

 

4. A terceira intervenção de Paulo (27:33-38)

 

Vemos no texto o destaque da verdade de que devemos associar palavras com ações. Paulo rogou que todos se alimentassem e ele mesmo tomou o pão, agradeceu a Deus e começou a comer (27:34-35). O alimento os fortaleceu e os animou para a luta.

 

5. O naufrágio em Malta (27:39־ 28:10)

 

Em Malta aconteceram episódios diversos, bons e ruins.

 

a. O navio foi destroçado pela violência do mar (27:39-41).

b. Vidas preciosas foram ameaçadas de morte e salvas por um oficial amigo, usado pela providencia divina (27:42,44).

c. Os habitantes da ilha, os bárbaros (aqueles que não falavam grego e que, certamente, falavam a língua fenícia visto que a ilha foi colonizada pelos fenícios) trataram os náufragos com singular humanidade (28:2).

d. De assassino a um deus (28:3-6). Essa mudança extrema no tratamento dos apóstolos não foi aceita por eles (Ver At 10:23-26; 14:13-18).

e. A cura do pai de Públio, homem hospitaleiro, principal da ilha (28:7 10).

 

6. A chegada a Roma e continuação da missão de Paulo (28:11-31)

 

Três meses foram passados em Malta e a viagem desses homens prosseguiu no terceiro navio em que embarcaram. Em Siracusa, ficaram três dias e, bordejando ou ziguezagueando, chegaram a Régio. Em Poteóli, Paulo e seus companheiros encontraram alguns crentes e ficaram com eles uma semana. De Roma vieram outros encontrá-los até a praça Ápio e as Três Vendas, a mais de 40 quilômetros da capital. Esse encontro fez com que Paulo sentisse mais ânimo (28:15b). Em Roma, Paulo teve prisão domiciliar sob a guarda de um soldado (28:16).

 

Deus cumpriu Sua promessa, e todos chegaram sãos e salvos.

 

7. Testemunhando para os judeus

 

O testemunho de Paulo aos judeus em Roma revela o seu amor para com seus irmãos, seus compatriotas (Rm 9:1-3; 10:1-4). No entanto, eles rejeitaram mais uma vez a pessoa do Messias que foi enviado especialmente para Israel (Jo 1:11; Mt 15:24) e nisso se cumpriu a Palavra de Deus (Is 6:9-10; 65:2-3; Rm 10;28).

 

a. O testemunho de Paulo descreve sua experiência em julgamentos anteriores e sua inocência (28:17-19).

b. Sua prisão era decorrente de sua esperança em Cristo (28:20).

c. Seu testemunho foi uma longa exposição da palavra, com respeito ao reino de Deus e Jesus (28:23).

d. A rejeição dos judeus (28:25-28).

 

8. Testemunho continuado até à morte (28:30-31; 2Tm 4:7,8,17)

 

Paulo continuou testemunhando para os gentios, irmãos em Cristo e soldados romanos. (Fp 1:12-14).

 

CONCLUSÃO

 

Paulo chegou ao final da sua carreira com plena convicção de que realizou a obra missionária que lhe foi dada: "Quero ainda, irmãos, cientificar-vos de que as coisas que me aconteceram têm, antes, contribuído para o progresso do evangelho" (Fp 1:12).

 

Todas as dificuldades de sua longa viagem foram encaradas como contribuição ao crescimento do evangelho. Paulo tinha certeza de que todas as incompreensões, as injustiças, a rejeição e sofrimentos o ajudaram a aperfeiçoar seu trabalho e concorreram para seu bem pessoal (Rm 8:18-28; 2 Tm 4:7, 8,17).

 

Fonte Bibliografia E. P. Faustino

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Pr Adélcio Ferreira - IBPMG

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