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O Que os Profetas Falaram Sobre o Reino

Andrew M. Woods

 

Seriam necessários vários volumes para retratar adequadamente tudo o que os profetas do Antigo Testamento revelaram sobre o reino vindouro,1 mas algumas previsões do profeta Isaías bastam.

De acordo com Isaías 2.2-4,

Nos últimos dias o monte do templo do Senhor será estabelecido como o principal; será elevado acima das colinas, e todas as nações correrão para ele. Virão muitos povos e dirão: “Venham, subamos ao monte do Senhor, ao templo do Deus de Jacó, para que ele nos ensine os seus caminhos, e assim andemos em suas veredas”. Pois a lei sairá de Sião, de Jerusalém virá a palavra do Senhor. Ele julgará entre as nações e resolverá contendas de muitos povos. Eles farão de suas espadas arados, e de suas lanças, foices. Uma nação não mais pegará em armas para atacar outra nação, elas jamais tornarão a preparar-se para a guerra.

Isaías 11.6-9 diz, de modo semelhante: O lobo viverá com o cordeiro, o leopardo se deitará com o bode, o bezerro, o leão e o novilho gordo pastarão juntos; e uma criança os guiará. A vaca se alimentará com o urso, seus filhotes se deitarão juntos, e o leão comerá palha como o boi. A criancinha brincará perto do esconderijo da cobra, a criança colocará a mão no ninho da víbora. Ninguém fará nenhum mal, nem destruirá coisa alguma em todo o meu santo monte, pois a terra se encherá do conhecimento do Senhor como as águas cobrem o mar.

Isaías 65.17-25 também revela: Pois vejam! Criarei novos céus e nova terra, e as coisas passadas não serão lembradas. Jamais virão à mente! Alegrem-se, porém, e regozijem-se para sempre no que vou criar, porque vou criar Jerusalém para regozijo e seu povo para alegria. Por Jerusalém me regozijarei e em meu povo terei prazer; nunca mais se ouvirão nela voz de pranto e choro de tristeza. Nunca mais haverá nela uma criança que viva poucos dias, e um idoso que não complete os seus anos de idade; quem morrer aos cem anos ainda será jovem, e quem não chegar aos cem será maldito. Construirão casas e nelas habitarão; plantarão vinhas e comerão do seu fruto. Já não construirão casas para outros ocuparem, nem plantarão para outros comerem. Pois o meu povo terá vida longa como as árvores; os meus escolhidos esbanjarão o fruto do seu trabalho. Não labutarão inutilmente, nem gerarão filhos para a infelicidade; pois serão um povo abençoado pelo Senhor, eles e os seus descendentes. Antes de clamarem, eu responderei; ainda não estarão falando, e eu os ouvirei. O lobo e o cordeiro comerão juntos, e o leão comerá feno, como o boi, mas o pó será a comida da serpente. Ninguém fará nem mal nem destruição em todo o meu santo monte, diz o Senhor.

 

De acordo com essas previsões maravilhosas encontradas nos escritos de Isaías, Jerusalém será o centro da autoridade espiritual e política do mundo quando o reino messiânico se materializar. Essa autoridade resultará em perfeita justiça, paz mundial, fim dos conflitos com o reino animal e dentro dele, bem como conhecimento espiritual universal. Outras características da era do reino incluem uma terra renovada, uma Jerusalém regozijante, a abreviação da maldição, justiça social autêntica, prosperidade e respostas imediatas à oração. Essas condições gloriosas aguardam a entronização do rei escolhido pelo próprio Deus por uma geração judaica futura (Deuteronômio 17.15). Tal entronização fará com que Israel seja não apenas o proprietário, mas também o possuidor de tudo aquilo que foi prometido nas alianças. Quando essas bênçãos pactuais sobrevierem a Israel naquele dia futuro, o mundo inteiro também será abençoado (Romanos 11.12,15).

 

Condições milenares reveladas pelos profetas

Todos os profetas retratam de forma coerente as condições espirituais e políticas que existirão na terra durante a época do reino, após Israel ter sido restaurado. Quando damos um passo atrás e analisamos tudo o que eles têm a dizer sobre o assunto, uma definição concreta e gloriosa do reino começa a emergir.

 

Reino eterno

O reino vindouro será estabelecido pelo próprio Deus, não pelo homem. Ele será um reino eterno que nunca mais será destruído. Daniel 2.44 diz: “Na época desses reis, o Deus dos céus estabelecerá um reino que jamais será destruído e que nunca será dominado por nenhum outro povo. Destruirá todos os reinos daqueles reis e os exterminará, mas esse reino durará para sempre”. Daniel 7.27 transmite esse componente eterno do reino, ao afirmar: “Então a soberania, o poder e a grandeza dos reinos que há debaixo de todo o céu serão entregues nas mãos dos santos, o povo do Altíssimo. O reino dele será um reino eterno, e todos os governantes o adorarão e lhe obedecerão”. Se o reino milenar só durará mil anos, como se pode dizer que terá duração eterna? Mark Hitchcock fornece uma analogia proveitosa:

 

Cristo governará sobre esta terra em seu reino por mil anos e reinará para sempre. O futuro reino de Deus tem duas partes ou fases. A primeira fase é o reino milenar de Cristo sobre esta terra (Apocalipse 20.1-6), e a segunda fase é o estado eterno (Apocalipse 22.5). Conforme ouvi sendo descrito certa vez, o milênio é o alpendre da eternidade.

Governo direto de Cristo

O reino representará o governo global de Cristo sobre a terra. Assim como Deus procurou reinar sobre o primeiro Adão, o qual, por sua vez, governou a criação em nome de Deus, essa mesma estrutura será restaurada. Deus Pai reinará sobre o último Adão, Jesus Cristo, que, por sua vez, governará a terra em nome de Deus Pai (Salmos 2.6-9; Daniel 7.13-14). Zacarias 9.9-10 diz:

Alegre-se muito, cidade de Sião! Exulte, Jerusalém! Eis que o seu rei vem a você, justo e vitorioso, humilde e montado num jumento, um jumentinho, cria de jumenta... Ele proclamará paz às nações e dominará de um mar a outro e do Eufrates até os confins da terra.

Da mesma maneira, Miqueias 5.2,4 diz: Mas tu, Belém-Efrata, embora pequena entre os clãs de Judá, de ti virá para mim aquele que será o governante sobre Israel. Suas origens estão no passado distante, em tempos antigos. Ele se estabelecerá e os pastoreará na força do Senhor, na majestade do nome do Senhor, o seu Deus. E eles viverão em segurança, pois a grandeza dele alcançará os confins da terra.

Reino terreno

 

O reino vindouro será de natureza terrena. Depois que Cristo retornar e colocar os pés sobre a terra de modo geral (Jó 19.25) e sobre o monte das Oliveiras de modo específico (Zacarias 14.4), ele reinará sobre toda a terra. Zacarias 14.9 diz: “O Senhor será rei de toda a terra. Naquele dia, haverá um só Senhor e o seu nome será o único nome”. As profecias de Zacarias não devem ser interpretadas como se seu cumprimento fosse acontecer no estado eterno (Apocalipse 21–22), uma vez que elas também retratam a relutância humana em submeter-se à autoridade do Messias (Zacarias 14.16-18). Tal rebelião humana prematura será coisa do passado no estado eterno (Apocalipse 21.4).

Promessas da terra concretizadas

 

Durante essa época terrena do reino, as promessas específicas de Deus com relação à terra de Israel (Gênesis 15.18-21) serão cumpridas. Ezequiel 47.13-23 antevê esse período em suas previsões sobre a divisão específica da terra entre as diversas tribos de Israel. Mais uma vez, é difícil acreditar que as profecias de Ezequiel apontem para o estado eterno (Apocalipse 21–22), uma vez que, com respeito a esse período, está predito que as tribos terão seus nomes escritos em cada uma das doze portas na Nova Jerusalém (Apocalipse 21.12), não que terão sua própria porção de terra. Os profetas do Antigo Testamento também preveem que, quando o reino chegar, a terra de Israel nunca mais será dividida.

 

Conforme observado anteriormente, o reino de Israel foi dividido depois que Salomão morreu. Essa divisão resultou no reino do Norte, ou Israel, composto por dez tribos, e no reino do Sul, ou Judá, composto pelas duas tribos restantes (1Reis 12). A tentativa constante das nações pagãs de continuar a dividir a terra de Israel é precisamente o que trará a ira de Deus sobre elas durante o futuro período da tribulação (Joel 3.2). A era do reino, por sua vez, representa um período em que a terra de Israel será unida e não mais sofrerá divisões (Jeremias 30.3). Ezequiel 37.21-22 diz:

E diga-lhes: Assim diz o Soberano, o Senhor: Tirarei os israelitas das nações para onde foram. Vou ajuntá-los de todos os lugares ao redor e trazê-los de volta à sua própria terra. Eu os farei uma única nação na terra, nos montes de Israel. Haverá um único rei sobre todos eles, e nunca mais serão duas nações nem estarão divididos em dois reinos.

 

Preeminência de Israel

A era do reino também representará um período em que Deus cumprirá suas promessas feitas à nação de Israel, em geral, e à cidade de Jerusalém, em particular. Durante o milênio, Israel será a cabeça das nações, não a cauda (Deuteronômio 28.13). Observe as seguintes previsões:

Isaías 14.2:

 

Povos os apanharão e os levarão ao seu próprio lugar. E a descendência de Israel possuirá os povos como servos e servas na terra do Senhor. Farão prisioneiros os seus captores e dominarão sobre os seus opressores.

Isaías 49.22-23: Assim diz o Soberano, o Senhor: Veja, eu acenarei para os gentios, erguerei minha bandeira para os povos; eles trarão nos braços os seus filhos e carregarão nos ombros as suas filhas. Reis serão os seus padrastos, e suas rainhas serão as suas amas de leite. Eles se inclinarão diante de você, com o rosto em terra; lamberão o pó dos seus pés. Então você saberá que eu sou o Senhor; aqueles que esperam em mim não ficarão decepcionados.

 

Zacarias 8.23: ... Naqueles dias, dez homens de todas as línguas e nações agarrarão firmemente a barra das vestes de um judeu e dirão: ‘Nós vamos com você porque ouvimos dizer que Deus está com o seu povo. Portanto, sistemas teológicos que atribuem meramente “um futuro” a Israel não captam todo o significado daquilo que os profetas predizem sobre o reino vindouro. Durante a era do reino, Israel não terá um mero “futuro”; Israel será “o futuro”.

 

A cidade de Jerusalém também será elevada, tanto do ponto de vista físico quanto espiritual, a um lugar de destaque em relação às demais nações da terra durante a era do reino. Jerusalém não será mais uma pedra pesada para as nações como é hoje em dia (Zacarias 12.2-3); em vez disso, ela se tornará uma fonte de bênção para o mundo inteiro. Jerusalém será a capital da era do milênio (Isaías 24.23; Zacarias 8.22; 14.16-18). Por exemplo, Isaías 2.2-3 prevê:

Nos últimos dias o monte do templo do Senhor será estabelecido como o principal; será elevado acima das colinas, e todas as nações correrão para ele. Virão muitos povos e dirão: “Venham, subamos ao monte do Senhor, ao templo do Deus de Jacó, para que ele nos ensine os seus caminhos, e assim andemos em suas veredas”. Pois a lei sairá de Sião, de Jerusalém virá a palavra do Senhor.

Templo milenar

 

As profecias sobre a preeminência milenar de Israel também parecem indicar que Jerusalém não só ocupará um lugar de autoridade política sobre o mundo, como também exercerá autoridade espiritual. O profeta Ezequiel contribui muito com o assunto da autoridade religiosa milenar de Jerusalém com suas previsões de que um templo estará em funcionamento durante toda a época do reino (Ezequiel 40–46). Aparentemente, sacrifícios de animais também farão parte do culto nesse futuro templo. Muito já foi escrito em defesa da natureza literal tanto do templo quanto de seus sacrifícios,3 mas basta, neste momento, salientar que as profecias referentes ao templo milenar se aplicam apenas ao futuro reino milenar de Cristo. Não é possível argumentar que elas estão sendo cumpridas hoje sem alegorizar ou espiritualizar seus muitos detalhes.

 

Além disso, duas razões impedem que essas promessas sejam cumpridas no estado eterno (Apocalipse 21–22). Em primeiro lugar, Ezequiel afirma que o príncipe precisa oferecer um sacrifício para si (Ezequiel 45.22). Essa não poderia ser uma previsão do estado eterno, uma vez que nenhum tipo de pecado será uma realidade então (Apocalipse 21.4). Em segundo lugar, quando João descreveu o estado eterno, ele não avistou templo algum ali (Apocalipse 21.22). Se as profecias de Ezequiel a respeito de um templo milenar não se encaixam hoje nem no estado eterno, o único tempo lógico para seu cumprimento é durante o reino milenar que precede o estado eterno.

 

Davi milenar

De acordo com Jeremias 30.9, a nação não mais servirá a opressores estrangeiros, mas se dedicará exclusivamente ao serviço do Senhor e de Davi, a quem o Senhor entronizará. É comum que os intérpretes entendam o Davi milenar ressurreto (Oseias 3.5; Ezequiel 34.23; 37.24; Isaías 55.3-4) como uma referência ao principal filho de Davi, Jesus Cristo (Lucas 1.32,69; Atos 2.29-30; 13.22-23,34). No entanto, tal interpretação não pode ser sustentada com base em Jeremias 30.9 e constitui uma inserção inadmissível do Novo Testamento no Antigo. Se Jeremias quisesse que Davi fosse entendido em um sentido simbólico, ele o teria expresso. Fruchtenbaum explica:[N]ada no texto indica que Davi deve ser interpretado simbolicamente. Quando os profetas desejavam referir-se ao messias em conexão com Davi, eles empregavam títulos como “Raiz de Jessé”, “Ramo de Davi”, “Filho de Davi” ou “Semente de Davi”. Nenhuma dessas expressões é utilizada aqui. O texto simplesmente diz Davi. Seguindo a interpretação literal, é melhor ler o texto como ele se apresenta, considerando Davi literalmente – o qual, em sua forma ressurreta, atuará como rei sobre Israel e como príncipe em sujeição ao Rei do mundo.

 

Portanto, Davi será ressuscitado juntamente com todos os outros santos do Antigo Testamento (Daniel 12.2; João5.28-29; Atos 24.15; Apocalipse 20.4) e reinará em submissão a Cristo durante o milênio em uma forma governamental de corregência. “Enquanto Jesus, o Messias, reinar sobre toda a terra, Davi será ressuscitado para reinar com Cristo como vice-regente sobre a nação de Israel.”5 Com relação às previsões do Davi milenar, Walvoord faz uma observação semelhante: “Embora alguns tenham tentado interpretar essa profecia de uma forma não tão literal, a afirmação clara é que Davi – agora morto, cujo corpo se encontra em um túmulo em Jerusalém (Atos 2.29) – será ressuscitado”.6 Em outro lugar,

 

Walvoord observa: Como em outras passagens, o cumprimento da aliança davídica está associado ao retorno de Israel à terra após o tempo de angústia para Jacó, conforme indicado no contexto anterior. Aqui é declarado que o povo servirá a Jeová e a Davi, seu rei. Não há uma boa razão para que isso não seja entendido exatamente da maneira que está escrito – isto é, que Davi será ressuscitado dentre os mortos e reinará com Cristo sobre o povo de Israel no milênio. Mesmo que Davi se referisse a Cristo, o principal Filho de Davi, essa ainda é uma clara referência a um futuro milênio, não a uma situação existente hoje. [...] Deveria ser óbvio que, na época de Ezequiel, Davi já estava morto havia mais de 400 anos e que essa é uma profecia de que ele será ressuscitado dentre os mortos antes do reino milenar e dividirá com Cristo o governo do povo de Israel. Tal situação é bastante estranha à época atual. [...] Davi, ressurreto dentre os mortos, compartilhará essa posição de autoridade, como príncipe, sob a liderança de Cristo. Essa interpretação não apenas aponta para um cumprimento literal de muitas profecias relacionadas, como honra completamente a Palavra de Deus, infalivelmente inspirada pelo Espírito Santo. [...] Davi, ressurreto dentre os mortos juntamente com os santos do Antigo Testamento, tem parte no governo do povo de Israel. Isso também se aplica aos doze apóstolos, a quem Cristo garantiu participação no governo de Israel no estado milenar. [...] Um dos aspectos interessantes do governo milenar é o fato de que o Davi ressurreto será, ao que tudo indica, um príncipe sob a liderança de Cristo posto sobre a administração do reino milenar naquilo que diz respeito a Israel.

Retidão

O reino será uma era caracterizada pela retidão (Isaías 2.4; 11.3-5; 16.5; 32.1; 42.3-4; Zacarias 14.17). Isaías 9.6-7 diz (ênfase acrescentada):

Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, e o governo está sobre os seus ombros. E ele será chamado Maravilhoso Conselheiro, Deus Poderoso, Pai Eterno, Príncipe da Paz. Ele estenderá o seu domínio, e haverá paz sem fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, estabelecido e mantido com justiça e retidão desde agora e para sempre. O zelo do Senhor dos Exércitos fará isso.

 

Tal retidão pode ser atribuída a vários fatores. Primeiro, a nova aliança estará em vigor para Israel, gerando, no povo de Deus, uma compulsão interna à obediência graças ao ministério do Espírito Santo (Isaías 32.15; 44.3; Jeremias 31.33; Ezequiel 39.29). Ezequiel 36.24-28 prediz:

Pois eu os tirarei dentre as nações, os ajuntarei do meio de todas as terras e os trarei de volta para a sua própria terra. Aspergirei água pura sobre vocês e ficarão puros; eu os purificarei de todas as suas impurezas e de todos os seus ídolos. Darei a vocês um coração novo e porei um espírito novo em vocês; tirarei de vocês o coração de pedra e, em troca, darei um coração de carne. Porei o meu Espírito em vocês e os levarei a agir segundo os meus decretos e a obedecer fielmente às minhas leis. Vocês habitarão na terra que dei aos seus antepassados; vocês serão o meu povo, e eu serei o seu Deus.

 

Após a nova aliança ser inaugurada, o mundo também receberá conhecimento universal de Deus (Jeremias 31.31-34). Isaías 11.9 diz: “... pois a terra se encherá do conhecimento do Senhor como as águas cobrem o mar”. Com a remoção da Bíblia das escolas públicas e o aumento do número de igrejas buscando oferecer uma dieta espiritual mais amigável aos de fora, é evidente que essas profecias de conhecimento universal não estão sendo cumpridas hoje. Walvoord observa:

Deveria ser bastante óbvio que essa não é uma situação existente hoje e que tais profecias milenares não estão sendo cumpridas agora em um sentido literal. Isso só será possível sob as circunstâncias peculiares do reinado universal de Cristo, com a exclusão dos incrédulos no início do milênio e a constante proclamação da verdade sobre Cristo.

 

Segundo, a ressurreição dos santos justos do Antigo Testamento inaugurará o reino milenar (Isaías 26.19; Daniel 12.2-3). 

 

Terceiro, o reino milenar começará com um remanescente piedoso mortal que sobreviveu ao período da tribulação (Ezequiel 20.34-38; Zacarias 13.8-9).

 

Walvoord explica:

O juízo purificador de Israel ao final desta era, portanto, não incluirá apenas as provas da grande tribulação, em que dois terços da nação perecerão, mas culminará no juízo de Deus após o povo se reunir novamente, quando todos os incrédulos que permanecerem serão lançados fora. O reino milenar, portanto, começará com o remanescente piedoso de Israel que tiver depositado confiança no Senhor e que desejar seguir a liderança de seu Messias e Rei.9

Por intermédio desse remanescente piedoso mortal, a terra será repovoada, resultando em uma transferência da natureza pecaminosa ao longo das gerações milenares (Ezequiel 45.22; Zacarias 14.16-18).

 

Quarto, a natureza pecaminosa dos crentes mortais será mantida sob controle por meio do reinado direto de Jesus Cristo, o qual governará com cetro de ferro (Salmos 2.6-9; Isaías 11.4) e aplicará castigo instantâneo a todos os rebeldes milenares (Zacarias 14.16-18). Mais uma vez, tais profecias não podem estar falando do estado eterno. A presença do Messias governando com cetro de ferro será desnecessária nessa época, haja vista a ausência de pecado ou rebelião de qualquer tipo (Apocalipse 21.4).

 

Maldição abreviada

O reino milenar constituirá um período em que a maldição edênica será refreada, ainda que não totalmente removida. Ao que tudo indica, a morte continuará sendo uma realidade para os mortais, mas longas expectativas de vida, semelhantes àquelas constatadas na época pré-diluviana (Gênesis 5.5,27), serão a norma. Isaías 65.20,22b diz:

 

Nunca mais haverá nela uma criança que viva poucos dias, e um idoso que não complete os seus anos de idade; quem morrer aos cem anos ainda será jovem, e quem não chegar aos cem será maldito. Pois o meu povo terá vida longa como as árvores; os meus escolhidos esbanjarão o fruto do seu trabalho.

Tais profecias, obviamente, não estão ocorrendo na época presente, já que é raro alcançar os cem anos de idade no mundo de hoje (Salmos 90.10). Além disso, elas não poderiam apontar para a época do estado eterno, quando a morte em si será coisa do passado (Apocalipse 21.4). O único tempo em que uma profecia como Isaías 65.20,23 poderia receber cumprimento é durante o reino milenar de Cristo, em que a maldição terá sido refreada, embora não totalmente erradicada.

 

Paz

O período do reino também será caracterizado pela paz mundial (Isaías 9.6-7; 11.9; 65.25). Isaías 2.4 prediz: “... Eles farão de suas espadas arados, e de suas lanças, foices. Uma nação não mais pegará em armas para atacar outra nação, elas jamais tornarão a preparar-se para a guerra”. Infelizmente, tal versículo está gravado no edifício das Nações Unidas em Nova York. Com isso, a organização atribuiu a si uma prerrogativa messiânica, uma vez que somente o verdadeiro Messias será capaz de levar a efeito essa profecia de paz mundial. As Nações Unidas nunca serão capazes de inaugurar uma paz mundial duradoura. Esse versículo só será cumprido com o retorno pessoal de Cristo e o estabelecimento do seu reino.

 

A ausência de guerra ou de qualquer conflito armado durante o milênio possibilitará que Israel habite em segurança. Tal segurança apresenta um nítido contraste com relação aos dias de hoje e à maior parte da história de Israel, em que sua própria existência nacional é rotineiramente ameaçada. Amós 9.15 diz: “‘Plantarei Israel em sua própria terra, para nunca mais ser desarraigado da terra que lhe dei’, diz o Senhor, o seu Deus”. De forma semelhante, Ezequiel 34.25 prediz: “Farei uma aliança de paz com elas e deixarei a terra livre de animais selvagens para que as minhas ovelhas possam viver com segurança no deserto e dormir nas florestas”.

 

A paz mundial será tão abrangente nesse tempo que incluirá até o reino animal. Isaías 65.25a diz: “O lobo e o cordeiro comerão juntos, e o leão comerá feno, como o boi, mas o pó será a comida da serpente”. Os animais deixarão de devorar uns aos outros, pois serão transformados de carnívoros em herbívoros na época do reino. O conflito entre o homem e os animais também se tornará coisa do passado quando o reino for estabelecido. Isaías 11.8 diz: “A criancinha brincará perto do esconderijo da cobra, a criança colocará a mão no ninho da víbora”.

Prosperidade

A era do reino também será um tempo de prosperidade agrícola global sem precedentes (Isaías 30.23-24; 35.1-2). Amós 9.13-14 prevê o seguinte:

“Dias virão”, declara o Senhor, “em que a ceifa continuará até o tempo de arar, e o pisar das uvas até o tempo de semear. Vinho novo gotejará dos montes e fluirá de todas as colinas. Trarei de volta Israel, o meu povo exilado, eles reconstruirão as cidades em ruínas e nelas viverão. Plantarão vinhas e beberão do seu vinho; cultivarão pomares e comerão do seu fruto”.

Uma questão relacionada é o fato de que o reino também será um tempo de perfeita justiça social. Muitos hoje em dia deturpam esse conceito de justiça social inserindo, no texto, a ideia marxista de redistribuição obrigatória de riquezas. No entanto, quando Deus estabelecer uma justiça social autêntica durante o reino milenar, ela voltará a receber sua definição original: a possibilidade de preservar o fruto do trabalho árduo sem que ele seja desviado por coerção do governo e dado àqueles que nada fizeram para merecê-lo. Isaías 65.22a prediz: “Já não construirão casas para outros ocuparem, nem plantarão para outros comerem”.

Alterações topográficas

Além de prosperidade física, outras alterações agrícolas e topográficas grandiosas ocorrerão no planeta Terra com o estabelecimento do reino. Exemplos dessas mudanças topográficas profundas incluem chuvas abundantes (Isaías 30.23; 35.7; Ezequiel 34.26-27) e águas irrompendo no deserto e em outros lugares áridos (Isaías 35.6-7). Outra alteração topográfica significativa será o retorno do mar Morto à vida física (Ezequiel 47.1-12). Uma visita ao mar Morto hoje revela que essa profecia não pode estar sendo cumprida agora. Ela tampouco se encaixa no estado eterno (Apocalipse 21–22), uma vez que, durante esse período, “o mar já não existia”, como descreve João (Apocalipse 21.1). O único tempo em que essa profecia se encaixa de forma lógica é durante o reino milenar. Além disso, durante a era do reino, o sol será sete vezes mais brilhante do que seu nível atual de iluminação. Isaías 30.26 prediz: “A luz da lua brilhará como o sol, e a luz do sol será sete vezes mais brilhante...”. Uma vez mais, tal previsão não poderia receber cumprimento durante o estado eterno. Afinal, nessa época, os luminares, como o sol e a lua, estarão ausentes (Apocalipse 21.23; 22.5). Durante o reino milenar, também haverá outros fenômenos, como cura física universal (Isaías 35.5-6) e respostas instantâneas à oração (Isaías 65.24).

Resumo

Porque Deus é perfeitamente confiável, ele não pode permitir que a terra atual deixe de existir (Gênesis 8.22) sem que antes todas essas profecias maravilhosas se concretizem. Portanto, Walvoord conclui: “Nada comparável a isso já foi vivenciado na história do homem. [...] Embora a evidência pareça indicar que Israel continuará sendo um povo por toda a eternidade, o milênio será o último capítulo de sua história na presente terra”.10 A leitura mais natural e lógica dessas profecias do reino indica que elas aguardam um cumprimento no futuro reino milenar. Elas nunca foram cumpridas na história da humanidade nem estão sendo cumpridas hoje. Toussaint e Quine resumem bem isso: Por que colocar o foco no reino vindouro se tantos crentes hoje em dia estão consternados com os milhões de pessoas sendo mortas por guerras civis, aids, malária e fome? Por que se preocupar com o reino vindouro se 250 000 vidas foram ceifadas em um único dia pelo tsunami de dezembro de 2004, se o mundo enfrenta a ameaça de pandemia da gripe aviária asiática, se tantos perdem a vida por causa de furacões e se pessoas estão morrendo em guerras e ataques terroristas?

 

É bem verdade que o mundo está sendo molestado por pecados, guerras e doenças desde o pecado de Adão. Esta é a era do homem, e Satanás é o deus deste século. A conclusão é óbvia: esse não é o reino prometido de Deus. Jesus não está exercendo autoridade régia absoluta agora. Contudo, algum dia, o mundo será abençoado pelo cumprimento de sua herança davídica. Que esse dia chegue logo!

Assim, quando estudamos as profecias relacionadas ao reino – feitas não apenas pelo profeta Isaías, mas encontradas também nos escritos de outros profetas –, uma descrição e definição concretas começam a emergir. Uma vez que tais previsões não estão acontecendo hoje nem se encaixam no estado eterno (Apocalipse 21–22), elas aguardam um período intermediário glorioso, após o retorno de Cristo, para seu cumprimento final. Desse modo, durante a rebelião nacional de Israel e o adiamento do reino no tempo dos gentios, essas profecias funcionaram como uma luz brilhando em meio às trevas (2Pedro 1.19).

Notas

  1. Por exemplo, consulte J. Dwight Pentecost, Manual de Escatologia (São Paulo: Editora Vida, 2006), p. 490-498.

  2. Mark Hitchcock, 101 Answers to the Most Asked Questions About the End Times (Sisters, OR: Multnomah, 2001), p. 212, ênfase no original.

  3. Arnold G. Fruchtenbaum, Footsteps of the Messiah: A Study of the Sequence of Prophetic Events, ed. rev. (Tustin, CA: Ariel, 2003), p. 456-469.

  4. Ibid., p. 403, ênfase no original.

  5. Tim LaHaye, ed., Bíblia de Estudo Profética (São Paulo: Hagnos, 2005), p. 674.

  6. John F. Walvoord, Every Prophecy of the Bible (Colorado Springs, CO: Victor, 1999), p. 187.

  7. Walvoord, Israel in Prophecy (Grand Rapids: Zondervan, 1962), p. 86-87,97-98,121.

  8. Ibid., p. 122-123.

  9. Ibid., p. 119.

  10. Walvoord, Israel in Prophecy, p. 128.

  11. Stanley D. Toussaint e Jay A. Quine, “No, Not Yet: The Contingency of God’s Promised Kingdom”, Bibliotheca Sacra 164 (abr.-jun. 2007), p. 147.

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